segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A miséria tá foda

Com seu carrinho de supermercado foi até o balcão. Contando as moedas que acabara de ganhar de alguém pediu:
- Me dá duas fatias de queijo?
- DUAS fatias?
- É, dona, a miséria aqui hoje tá foda.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Pra dormir

- Moço, você não pode dormir aí.
A garçonete do restaurante vegetariano sorri preocupada pro mendigo que, sem graça, pede desculpas, se levanta e vai pegando sua coberta e seu papelão.
De longe outro mendigo grita:
- Joga água nele! Joga água nele!
A garçonete, já na porta do estabelcimento olha e sorri meio sem jeito:
- Não, não vou jogar água não.
O outro mendigo continuou sua procura por um lugar pra dormir.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Seus males espanta

Enquanto eu tocava a gaita ele apareceu na minha frente, parado, mudo, preto e com os músculos pequenos mas definidos. Segurava a camisa com as mãos e, com os dedos fazia um movimento de alguém que limpa uma poeira sobre o ombro.
Fiquei assustado com a forma com que ele me olhava profundamente, sem piscar ou mexer a cabeça. Para não demonstrar medo eu comecei a assoprar e puxar minha gaita, dando continuidade à música alegre que estive tocando até então.
Ele fechou os olhos e bambeou a cabeça para trás, mexeu as pernas, mexeu os braços, dedilhou na sua camiseta suada e começou a levantar os braços e a rebolar ao som do blues.
Aquilo tudo foi muito estranho.
Por fim, ele agradeceu com um grunhido estranho e foi incomodar os passantes.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Sentado na calçada, debaixo da árvore, ele mastigava alguma coisa grande.
Toda a atenção foi voltada para o que mastigava.
Seus olhos estavam abertos, fixos e secos, como a pele dos seus pés.

Outra vez

De uma pequena vila ao lado do Minhocão saiu todo vestido de preto e um chapéu.
De tão grande, pouco importa seu nome, importa o que ele faz. Ninguém quis perguntar.
De frente à sua casa uma mulher loira de calças jeans anda de um lado para o outro entrando e saido pela porta e carregando suas chaves na mão.
De dentro de outra casa da vila uma velha abre a janela e volta para dentro.
De longe um garoto grita: "Pode ir deixando tudo aí! Não vai tirar nada não!"
Devagar o homem de preto passa ao nosso lado: "Estão despejando esses aí"

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Marmitas dentro de um saco plástico.
Cada um leva a sua.
Cada vida que não será.

sábado, 28 de agosto de 2010

Estava deitado no chão dormindo e gemendo baixinho,
E sua perna tremilicava de vez em quando.
Por não ter como passar, pulei por cima dele.