sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Estava sentado com o olhar fixo e as costas curvadas, uma garrafa d'água ao seu lado quase vazia.
Com certeza hoje não vira a luz do sol: dormiu o dia todo pois não havia sentido em acordar (e ontem não havia sentido em dormir).
Para tentar quebrar a rotina, fixou o olhar na luz,
Mexeu os dedos e clicou em
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Mudança de rumo

Entrou no ônibus pagando a passagem:

"Muito bom dia, minha gente. Eu venho aqui hoje, eu acabo de sair do Hospital das Clínicas onde minha filha está internada, ela teve tumor e não pôde amamentar minha neta. Eu vim pedir pra vocês uma ajuda para comprar o leite dela. A mãe dela não pode amamentar e o médico mandou tomar o leite em pó do tipo 1, e assim que ela estiver com mais idade, então vai passar para o tipo 2.
Eu trabalho como catador de papelão e ganho vinte e cinco reais por dia. Agora não estou trabalhando para poder comprar as latas de leite pra minha neta.
Eu só queria pedir pra vocês uma ajuda. Qualquer coisa serve, aquilo que puder dar já ajuda, e Deus não vai deixar faltar nada pra vocês".

Ele passou arrecadando. Não havendo mais ninguém, ficou parado perto da porta esperando o ônibus parar.
Uma velha, de óculos escuros, que estava ao lado do homem, deve ter ficado envergonhada de não ter ajudado o pobre homem que estava ao seu lado esperando para descer, pois o chamou e abriu a bolsa.

"Obrigado, senhora. Mas o que é isso?" Apontou para uma mancha branca abaixo do pescoço da senhora.

"É vitiligo", e parou de olhar o pobre homem, que prosseguiu:

"É um pouco estranho, mas não passa. Tem gente que tem medo de relar, mas não passa".

A velha só respondeu com um "Uhum" sem nem olhar para o homem.



/////// BONUS TRACK -> Rogério Skylab - Jesus

sábado, 14 de novembro de 2009

Simetria

Varado na noite, aproximadamente 24 horas sem dormir, tomando uísque "Elis Regina" desde as 9 da manhã, um grupo de moleques pede para que ele se acomode de fronte a câmera.

- Vira o seu rosto um pouquinho pro outro lado? O seu rosto estava para lá no take anterior.

Pra ele tanto faz, por isso mexeu como lhe foi pedido, mas acrescentou:

- É assim? Só não vai me deixar simétrico nisso aí.

Dance! Dance! Dance!

No cruzamento da Avenida Paulista com a Rua Augusta, quase toda noite, acredito, o velhinho aproveita o mar de carros da cidade, o trânsito parado e a pouca paciência dos paulistanos para tirar um sarro.

*** Claro, "tirar um sarro" sou eu quem está falando ***

Bem em cima de uma casinha de lixo de concreto, ele põe seu fone de ouvido, sua jaqueta jeans e uma bermuda, e passa a noite dançando consigo mesmo ao som de alguma música muito próxima ao reggae, em vista do modo como dança.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Incrédulo

A moça bonita, maquiada e vestida de cinza para o escritório passou em frente ao homem magro sentado no chão.

-Moça me dá cinquenta centavos pra comprar uma comida?

A moça continuou o passo e só balançou a cabeça, impaciente.

O homem magro, não acreditando na moça, levantou o dedo do meio.

Na madrugada, filmavam na rua, ninguém podia passar naquele momento.

Ramiro Seixas atendeu ao pedido e descançou sua carroça.

-Se for pra TV eu posso fazer uma aparição se vocês quiserem.

-Legal, mas aqui estão fazendo um curta. Não é TV não.

-Ahhm, é curta.

Ramiro observou atentamente, provavelmente não sabe o que é um "curta".

Na trazeira de sua carroça, a foto de Raul Seixas deixa clara a similaridade apenas na barba.

Conversa

Em meio à multidão que andava eficiente de volta do horário de almoço, os três conversavam alegremente.

Os dois negros, com camisas rasgadas e chinelos velhos falavam com o carroceiro alto e sem destes.

Deveria ser algo engraçado pois o carroceiro balançava a cabeça afirmativamente e ria tão alto que as paredes de prédios ressoavam aquela alegria imbecil.